AS HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS
Um
dia de pesca dolorosamente reconfortante
(todo o teu
tormento se ameniza se o enfrentares)
A Primavera tinha feito a sua aparição há muito e os dias soalheiros e
radiosos convidavam a guardar os agasalhos no baú
já que apenas voltariam a ser necessários na estação outonal com a chegada dos primeiros
frios.
Porém, a manhã apareceu nublada, plúmbea, mas com uma temperatura amena e dentro dos valores que se vinham registando há algumas semanas.
Surpreendentemente ainda dentro de casa senti frio... um arrepio invulgar, talvez sintomático de algum resfriado que estivesse prestes a eclodir e
a reter-me no leito por alguns dias.
Hesitei se devia cumprir o planeado no dia anterior: - fazer uma das minhas frequentes incursões pela “natureza adentro”, tentar pescar umas
trutas e simultaneamente retemperar o corpo e o espírito. Abri o baú e retirei um abafo que não era suposto usar naquela altura. E pus-me a caminho. Apesar
daquele sintoma que citei, conclui que estava bem fisicamente.
Embora distasse algumas dezenas de quilómetros, a viagem até ao local previamente escolhido não demorou mais que uma hora.
Depois foi o mesmo ritual de sempre… calcei as altas galochas e vesti o fato camuflado que me habituei a usar nestas
lides depois de ter chegado à conclusão que ele muito contribuía para que os timoratos salmonídeos se
deixassem ludibriar mais facilmente.
E ao virar da esquina, ali estava ela, a ribeira que tão bem conhecia, com os seus pequenos açudes
e a sua corrente rápida chocando contra a penedia donde subiam pequenos flocos de espuma que contrastavam com o cinzento carregado do céu.
Fui andando ribeira acima, como peregrino em cumprimento de promessa por graça recebida.
No entanto rapidamente concluí que o dia estava mais para me deleitar com o meio
envolvente que propriamente para capturar algum exemplar, cujos membros, a mãe-natureza achou por bem transformar em barbatanas.
O coaxar das rãs, o voo rasante e super rápido dos belos pica–peixe e o mergulho da graciosa lontra, que por ali
naqueles tempos ainda se via com relativa frequência, eram motivos suficientemente fortes para prosseguir a minha caminhada.
Nas margens, as actividades agrícolas estavam em fase de grande labor e a cada passo
cruzava-me com pessoas que por ali andavam na sua faina. A todos saudava com o clássico e habitual BOM-DIA, recebendo de imediato a retribuição.
Interrogo-me como é que um gesto tão simpático e tradicional nos nossos costumes está em vias de extinção...
nos dias de hoje ninguém cumprimenta ninguém, enfim sinais dos tempos!
Aproveitando também para descansar as pernas, fiz uma pequena paragem para poder apreciar a azáfama de um
melro transportando os elementos que seleccionara para a feitura do ninho. O local escolhido foi um denso amieiro que crescia robusto na margem oposta. E como a partir daí as águas corriam mais mansas, pois o leito era menos acidentado, comecei a ouvir ainda longe como que uma sinfonia, de chocalhos, campainhas e balidos. Fui-me aproximando e deparei com um rebanho de gado ovino de razoáveis proporções.
Cumprimentei o pastor, homem já muito bem “instalado” na idade. Semblante triste, olhou-me cabisbaixo, retribuiu o cumprimento
que lhe fiz e de imediato perguntou-me: O senhor traz essa “farda”... quer dizer que andou lá pela guerra de
África. Confirmei a veracidade da sua dedução e respondi-lhe que tal como grande parte dos jovens da minha faixa etária, por lá tinha andado. E acrescentei
ainda que tinha estado na Guiné.
– Na Guiné? O seu rosto transformou-se e duas lágrimas rebeldes sulcaram-lhe o rosto
envelhecido. – Na Guiné morreu-me um filho, sabe? Ou melhor, mataram-no
cobardemente!
Tentei confortar o emocionado homem, com palavras de circunstância, dizendo-lhe que infelizmente muitos pais tinham sido atingidos por desgraça semelhante.
– Sei que isso é uma realidade, mas jamais me conformarei com a morte do meu
filho!
Enquanto enxugava as lágrimas e tentava conseguir alento para prosseguir a sua narrativa, eu senti um forte
ARREPIO. Um arrepio tal qual o sentido em casa e que julguei ser prenúncio de
gripe ou resfriado.
– Sabe, o meu filho era pára-quedista, mas nem corria risco de ser morto em
combate. Era especialista na dobragem dos pára-quedas e por isso não ia para o
mato. Mas morreu assassinado por um fuzileiro, natural aqui do concelho. Por causa de umas quezílias, umas rivalidades, surgidas num torneio de futebol, disputado em Bissau.
Fiquei petrificado, incapaz de articular uma palavra. Adicionei as minhas lágrimas às do
desventurado homem, pois não foi difícil concluir que, por obra sabe-se lá de
quem, estava na presença do pai do meu melhor amigo, um amigo conquistado durante o tempo militar.
As ovelhas e o fiel cão que as mantinha sempre dentro do perímetro
“alimentar” rodearam-nos, como que tentando perceber o diálogo tão parco de palavras,
mas cruel, que se estabeleceu entre o seu dono e o forasteiro.
E certamente ter-me-ão ouvido perguntar: – Então o Sr. é o pai do meu amigo Fernando Marques?
Com a voz embargada pela emoção, conseguiu responder afirmativamente e questionar-me:
– O Sr. conheceu o meu filho?
– Sim meu amigo, conheci muito bem o seu filho. Fomos "colegas de
armas” e grandes amigos, cá antes de mobilizados e na Guiné. E lamento dizer-lhe, mas infelizmente assisti à morte do seu filho!
Seguiu-se um silêncio sepulcral, selado com um forte abraço a que o “Fiel” não terá achado muita graça, pois rosnou e mostrou os
dentes como que perguntando ao dono se necessitava dos seus préstimos.
Inevitavelmente, surgiu o convite para ir a sua casa, sobranceira ao prado onde o gado se alimentava.
No caminho, como que justificando o convite, ia dizendo que a esposa, envolta num luto profundo desde o dia que soube ter perdido o filho amado, gostaria
muito de conhecer alguém que tão de perto convivera e fora amigo do seu “menino”.
Lá estavam religiosamente guardados os álbuns de recordações… as fotografias e os aerogramas com o desejo expresso e bem vincado do regresso, pois faltavam poucos meses para terminar a sua missão!
– Veja Sr., este é o nosso Fernando, com dois colegas. Deviam ser muito amigos, pois mandou-nos diversas
fotografias onde estão sempre os três.
Mais uma lágrima me correu pela face, quando vi a foto e lhes disse que o colega e
"amigo do meio” se encontrava naquele momento na sua presença!
Consegui reunir forças e dei-lhes alguns pormenores, da maneira estúpida e bárbara, como tudo
aconteceu e fiquei com a sensação que esse relato os deixou mais conformados,
porque até esse dia nada sabiam de mais concreto... apenas um lacónico telegrama lhes tinha chegado:
"O seu filho morreu num acidente com arma de fogo stop. Não tem direito a qualquer pensão por parte do Estado
stop. Sentidas condolências stop".
LIVRO GADAMAEL – RELATO DO ACONTECIMENTO
João de Jesus
Coimbra
quem
é João de Jesus
HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS
Neves, AJ
| agosto 1, 2007 01:01 PM
|
Casa-Mãe |
Voz no SAPO.pt
Joao,
Esta história é comovente . Na verdade na estrada da vida há situações complicadas , podes crer , que as tuas palavras confortaram os pais do teu Kamarada de armas , o teu amigo Fernando, neste mundo de afectos que cada vez vez mais s transforma num mundo frio sem a fraternidade que deve irmanar todo o ser humano .
Aquele abraço .
PEDRO PRATA
Afixado por: Pedro Prata em agosto 22, 2008 06:56 PMAmigo João, tambem fui paraquedista e estava em Moçambiquenessa altura, se fores assinante da Revista os PARAQUEDISTAS na mesma nº 17 nas páginas 34 e 35 vem o relato do sucedido pelo nosso colega "PEDRA DURA" que te deves lembrar bem desse colega.
Li o teu artigo sobre a morte do nosso colega assim como a conversa com os Pais e fiquei muito triste.
Sem mais com um abraço do amigo RORIZ.